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Como observar uma planta muda a forma como você desenha: 5 exercícios para treinar o olhar artístico

28 de ago.
5 min de leitura
Antes do primeiro traço, existe o olhar: observar formas, luz, cores e pequenas irregularidades é parte essencial do estudo botânico.
Antes do primeiro traço, existe o olhar: observar formas, luz, cores e pequenas irregularidades é parte essencial do estudo botânico.

Você já olhou para uma folha muitas vezes. Mas já reparou em como suas nervuras se organizam, onde a luz desaparece, como uma borda se curva ou quantas cores existem dentro daquilo que, à primeira vista, parecia simplesmente verde?


Na arte botânica, desenhar começa antes do primeiro traço.


Começa quando deixamos de olhar para uma planta apenas para reconhecê-la — uma folha, uma flor, um galho — e passamos a observar como ela realmente existe.


É nesse intervalo entre ver e perceber que o olhar artístico começa a ser construído.

E ele não é um talento reservado a algumas pessoas. A observação pode ser treinada.


Os cinco exercícios a seguir foram pensados para fazer justamente isso: desacelerar o olhar, perceber estruturas que normalmente passam despercebidas e transformar a observação da natureza em matéria para a criação.


Antes de desenhar, aprenda a ver


Nosso cérebro é extremamente eficiente em reconhecer padrões.


Quando olhamos rapidamente para uma folha, por exemplo, não precisamos analisar cada nervura para saber que estamos diante de uma folha. Reconhecemos a forma geral e seguimos adiante.


Para o artista, porém, esse atalho pode se tornar uma armadilha.


Em vez de representar aquilo que está diante dos olhos, começamos a desenhar a ideia que temos de uma folha.


A observação artística faz o movimento contrário.


Ela nos obriga a perguntar:


Onde essa folha é realmente mais larga?

Ela é perfeitamente simétrica?

Que direção seguem suas nervuras?

Onde a luz muda de temperatura?

A borda é lisa, ondulada ou irregular?

Que pequenas marcas tornam esse exemplar diferente de todos os outros?


Quanto mais específica se torna a observação, menos genérica tende a se tornar a representação.


Esse é um dos fundamentos do realismo botânico que trabalhamos na Cores & Contos:


antes de representar melhor a natureza, precisamos aprender a percebê-la melhor.


1. Observe sem desenhar


Escolha uma planta, uma flor ou apenas uma folha e coloque-a diante de você.


Durante um minuto inteiro, não desenhe e não fotografe.


Apenas observe.


Nos primeiros segundos, provavelmente você perceberá aquilo que é mais evidente: a forma, a cor predominante, o tamanho. Continue olhando.


Depois de algum tempo, outros detalhes começam a aparecer: uma nervura que muda de direção, uma pequena assimetria, uma mancha, a diferença entre a superfície iluminada e a parte que permanece na sombra.


Ao final do minuto, tente escrever cinco características que você não havia percebido imediatamente.


O objetivo não é memorizar a planta. É experimentar o que acontece quando damos ao olhar mais tempo do que normalmente damos.


2. Procure a estrutura antes dos detalhes


Antes de observar pétalas, nervuras ou texturas, procure entender como a planta está construída.


Pergunte-se:


Qual é o eixo principal?

Para onde o caule se inclina?

De onde partem as folhas?

Que formas geométricas simples poderiam representar inicialmente seus volumes?Existe repetição ou alternância?


Se for desenhar, experimente representar primeiro apenas essa estrutura, com linhas muito leves.


Uma flor complexa deixa de ser uma quantidade intimidante de detalhes quando começamos a compreender a organização que sustenta esses detalhes.


3. Descubra quantas cores existem dentro de uma cor


Escolha uma pequena região da planta — uma folha funciona muito bem para este exercício.


Agora esqueça por alguns instantes que ela é “verde”.


Observe novamente.


Talvez exista um verde mais amarelado próximo da luz, um verde profundo nas sombras, áreas azuladas, pontos ocres, marrons ou até avermelhados.


A natureza raramente apresenta uma cor completamente uniforme.


Esse exercício é particularmente importante para a pintura botânica porque nos ajuda a abandonar a ideia de “a cor do objeto” e começar a perceber relações de cor.


Em vez de perguntar “qual verde devo usar?”, experimente perguntar:


“Que cores estou realmente vendo?”


4. Observe a luz, não apenas a planta


Agora mude o foco.


Em vez de olhar apenas para a espécie, observe o que a luz está fazendo com ela.


Onde está a região mais clara?


Onde começa a meia-luz?


Qual parte desaparece na sombra?


Existe luz atravessando uma pétala ou uma folha?


A sombra tem uma borda dura ou suave?


Se puder, mova a planta lentamente em relação à janela e observe como sua aparência se transforma.


A estrutura botânica continua a mesma — mas a percepção de volume, profundidade e atmosfera muda completamente.


É por isso que aprender a representar luz não significa simplesmente adicionar branco às áreas claras e preto às escuras.


Significa compreender como a luz revela a forma.


5. Encontre aquilo que torna esse exemplar único


Por último, procure a imperfeição.


Uma folha mordida por um inseto.

Uma pétala dobrada.

Uma pequena mancha.

Uma nervura irregular.

Uma borda ressecada.

Uma flor que não se abriu como as demais.


Quando desenhamos a ideia de uma flor, tendemos a procurar uma versão perfeita.


Quando observamos uma flor real, encontramos uma história particular.


E muitas vezes são justamente essas irregularidades que dão verdade à representação.


Antes de terminar seu estudo, escolha um detalhe que só poderia pertencer àquela planta naquele momento.


Tente preservá-lo no desenho.


É aí que o estudo deixa de ser apenas uma representação genérica de uma espécie e começa a carregar a experiência de ter realmente observado aquele exemplar.


Um exercício final


Depois dos cinco exercícios, afaste-se da planta por alguns minutos.


Volte e olhe novamente.


Pergunte a si mesma:


O que eu vejo agora que provavelmente não teria percebido antes?


Essa pergunta é mais importante do que produzir um desenho perfeito.


Porque o desenho pode ser corrigido com prática.


Mas primeiro é preciso haver algo que você aprendeu a ver.


Da observação à prática


Treinar o olhar não significa tentar perceber tudo de uma vez.


Significa criar o hábito de permanecer diante da natureza tempo suficiente para que ela revele aquilo que um olhar apressado normalmente não percebe.


Forma. Estrutura. Luz. Cor. Ritmo. Assimetria. Textura.


Pouco a pouco, esses elementos deixam de ser apenas detalhes e passam a formar uma espécie de vocabulário visual.


É essa mudança que interessa ao artista.


Porque, quando o olhar se torna mais atento, o desenho também começa a mudar.


Continue praticando com o Caderno de Estudos Botânicos


Foi justamente para transformar observação em prática que criei o Caderno de Estudos Botânicos — Cor, luz e observação para artistas artesanais, da Cores & Contos.


Ele foi pensado para acompanhar quem deseja desenvolver o olhar artístico através da observação da natureza, sem transformar o processo criativo em uma corrida por resultados perfeitos.


Você pode imprimir, observar uma planta real e fazer os exercícios no seu próprio ritmo.


Caderno de Estudos Botânicos — R$ 9,90


Olhar outra vez


Vivemos cercados por imagens e, ainda assim, passamos cada vez menos tempo realmente olhando para alguma coisa.


A natureza oferece um exercício diferente.


Ela não precisa ser percorrida rapidamente.


Uma única folha pode conter estrutura, cor, luz, textura, movimento e história suficientes para uma sessão inteira de estudo.


Na próxima vez que encontrar uma planta que desperte sua atenção, experimente não fotografá-la imediatamente.


Aproxime-se.


Observe.


Procure aquilo que não percebeu no primeiro olhar.


Talvez seja justamente ali que comece sua próxima criação.


Olhe outra vez.


 
 
 

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